Recorte #2
- Ba
- 8 de set. de 2022
- 2 min de leitura
| escrito por Fernanda Lima, em agosto de 2022 — Salvador, Brasil.
Coco e milho, combinação tradicionalíssima que faz parte das comidas dos festejos juninos no Nordeste, e que faz parte majoritária da composição do Mungunzá, ou Mugunzá, até mesmo chamado de Canjica para os que não são daqui.
Quando eu falo sobre o mungunzá, muito mais do que lembranças gustativas aparecem, as recordações sobre todo o processo de compra dos insumos, até a feitura dele ainda são latentes em minha memória.
O clima ameno das manhãs de junho na feira livre do bairro, cheiro de terra molhada que ainda ficava nos amendoins expostos nas barraquinhas dos feirantes, cheiro de milhos que acumulavam nas incontáveis pilhas de sua palha, o barulho do coco seco sendo quebrado para que os fregueses atestassem a sua qualidade no momento da compra e, por último, o aroma das especiarias que dominavam as sacolas de compras.
Além dos aspectos sensoriais da feira, participar do preparo também me fascinava. Quando em casa, observava minha mãe preparar o mungunzá e a ajudava como podia com minha pouca idade. Ela deixava o milho em água durante a noite inteira, e me explicava que era um passo essencial. No dia seguinte, todos aqueles aromas se encontravam na panela depois de um tempo de fervura, o leite de coco fresco feito em casa, o milho e as especiarias se uniam em uma espécie de mingau branco.
O mungunzá nunca dá para ser preparado em uma única porção, é comida para ser compartilhada, e isso é o que mais acho divertido: mungunzá, em alguma medida, é sinônimo de comunhão.
E mesmo que tenha presença marcante nas festas juninas, ele é encontrado por toda Salvador em todos os dias do ano, nos carrinhos tradicionais das vendedoras e vendedores de mingau espalhados pela cidade.
Esse prato é importante para mim por ser a comida do lugar de onde venho, tem mãos dos meus ancestrais em sua história, e foi através dele que criei algumas de tantas memórias com minha mãe. Até hoje ela faz o mungunzá em casa. Aprendi a fazer e faço sempre quando tenho oportunidade, mas igual ao que mãinha faz, não há!


Esse relato é um pequeno fragmento, uma lembrança, uma foto num álbum, um recorte... Quantas histórias surgem da e sobre comida? Quantas memórias despertam em nós através dos cheiros, sabores ou da simples lembrança de uma refeição?


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