Camila Spolon responde 7 perguntas
- Ba
- 15 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
Primeiro, mulher de terreiro. Onde a cozinha é lugar de ser, é sagrado. Onde o acarajé não é (só) bolinho de feijão, é bola de fogo, é energia. Camila Spolon é cozinheira em quase todas as suas frentes; é também historiadora, pesquisadora, ativista alimentar, professora da Gastronomia Periférica, comunicadora, sonhadora e mais um tanto de coisas. Mas é, antes, mulher de Obaluaiê. Só depois vem o “resto”.

Como historiadora e pesquisadora da alimentação e da comensalidade das religiões de matrizes africanas, Camila já deu aula, já produziu artigos, mediou conversas, concedeu entrevistas... E continua compartilhando em seu perfil suas vivências, descobertas, seu ponto de vista e aquilo que vai aprendendo com os seus e os outros, nos livros e na “academia”, mas principalmente nas trocas diárias.
Como ativista alimentar, atua na linha de frente: vai dando forma, aos poucos, ao Além do prato —, que como tudo que nasce da ação direta, se estrutura no fazer. Projeto que colabora com movimentos políticos e sociais — Gente é pra brilhar, Panela Coletiva, Tem gente com fome, Sopão da Manas e Cozinha da Ocupa — e que busca, através da comida, ser instrumento para o reconhecimento da identidade e da ancestralidade; manifestação de cultura e de política.
É, portanto, perceptível que a comida é indissociável da Camila: está presente não só como sobrevivência, mas como vivência. É por meio dela que manifesta sua fé, realiza seus sonhos, constrói suas pontes, se relaciona com as pessoas… Aqui, nessas respostas que seguem, quem não a conhece pode perceber um pouco disso, mas fica uma sugestão: chega mais perto, vai escutar o que ela está dizendo por aí, acompanha sua caminhada e seu fazer.
1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?
A comensalidade é a forma mais completa de conhecer uma cultura, pois ela diz sobre as escolhas políticas, ambientais, sociais, culturais e religiosa de determinado grupo. Escolho a alimentação quando entendo o papel que ela ocupa dentro dos terreiros de Umbanda e Candomblé, promovendo não só uma conexão com as divindades, mas estreitando os laços da comunidade e celebrando a memória dos nossos ancestrais.
2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?
Tenho várias, mas uma em especial me marca pela simplicidade e ao mesmo tempo pela profundidade. Lembro da minha avó fazendo gelatina de morango e fracionando nos copos de requeijão e extrato de tomate. A graça na hora de comer era ouvir ela perguntando se eu queria a gelatina do copo grande ou pequeno.
3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?
Conhecer os restaurantes dentro dos parques da Disney. Tomar aquele sorvete escorrendo pelo braço enquanto a casquinha de chocolate se quebra na boca, sabe?
4 | Qual seu prato preferido hoje?
Gosto de comer a comida favorita das pessoas.
5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?
Não acho importante, acho fundamental e urgente! Entender a origem, forma de produção e comercialização dos alimentos permite com que façamos escolhas a partir dos nossos valores.
6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.
Não há história mais interessante do que ouvir as pessoas contarem sobre as coisas que elas gostam de comer e a maneira como comem, mas se quer encontrar isso em um livro, leia Ambiências: Histórias e Receitas do Brasil da querida Mara Salles.

7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?
Como uma boa mulher latina, a revolução me cruza dos pés à cabeça. Acredito na força que vem da terra e em toda a transformação que ela é capaz de promover. Ela é alimento, abrigo, morada, memória e vida. Sou cozinheira, dessas de mão cheia. Faço comida para criança, cuscuz que mata a saudade de casa, arrio padê na encruzilhada, tranço milho para não faltar comida, estouro pipoca para curar a alma, faço café para curar dor de amor e até sopa que levanta defunto. Sou de Obaluaiê. Minha coroa brilha feito dendê. Carrego a calma de quem caminha lentamente pela costa baiana e sabe ver a vida acontecer como quem pesca numa tarde de verão. Sou uma contadora de histórias oficial. Com diploma e tudo. Sou mulher de terreiro, historiadora, pesquisadora de comida ritual nas religiões de matriz africana, ativista alimentar e idealizadora do Além do prato, um movimento social que busca, por meio da troca de saberes coletivos e individuais, falar sobre a comensalidade e seu caráter identitário estruturado em uma prática ancestral, cultural e política.
Perfil da Camila Spolon




Adorei ler sobre a Camila, obrigada por essa entrevista massa!