Ieda de Matos responde 7 perguntas
- Ba
- 13 de out. de 2022
- 3 min de leitura
Baião de dois, pirão de parida, puba, bolinho de estudante, carne de sol, molho lambão, queijo coalho, feijão de corda, angu, inhame, farinha de mandioca, beiju, mungunzá… Ieda de Matos, como ela mesma ressalta, é antes dessa mistura de ingredientes e pratos, mulher, negra e nordestina.
Filha de lavradores, orgulha-se das mulheres da família com quem aprendeu os primeiros passos na cozinha. O que num primeiro momento era curiosidade e, em parte, obrigação, tornou-se horizonte. Fez do estudar formalmente, objetivo, e conhecer novos sabores e ingredientes, cotidiano.

De uma cozinha de subsistência na roça da Bahia, passando pela formação em Gastronomia e chegando ao restaurante Casa de Ieda em São Paulo, uma vida transcorreu entre panelas, do chão batido ao asfalto. É em sua “casa” que Ieda leva, todos os fins de semana, um pouco da Chapada Diamantina para seus clientes, ou melhor, suas “visitas”.
Em tempos em que o discurso é bonito, mas pouco colocado em prática, Ieda é força e resistência, mas principalmente coerência. Num país que conhece risoto e socarrat, mas não o arroz de garimpeiro; conhece curry e goulash, mas não sabe o que é godó de banana, ela mantém viva a esperança — desde a escolha dos fornecedores ao cardápio — que o brasileiro conheça e orgulhe-se de seu próprio país.
Confere as respostas da Ieda às 7 perguntas.
1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?
Meu maior sonho era ver as pessoas comerem a minha comida e sentir minha história e o amor que tenho pela minha profissão. Até hoje eu me surpreendo ao ver as pessoas comerem minha comida e penso a responsabilidade de alimentar e fazer hospitalidade. Saber que as pessoas saem de casa com expectativa de se alimentar na Casa de Ieda.
2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?
Manga verde. Minha mãe fazia um angu de manga verde, como se fosse uma umbuzada. Nunca me esqueço do sabor afetivo que me leva diretamente aos braços da minha mãe, sem contar a criatividade dessa mulher sertaneja.
3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?
Espalhar a Chapada Diamantina por toda parte. Luto todos os dias pela nossa cozinha brasileira e, sobretudo, pela culinária da minha terra. Meu maior objetivo desde sempre foi falar da Chapada Diamantina e jogar toda luz para minha origem, ingredientes e produtores.
4 | Qual seu prato preferido hoje?
Galinha de parida e pirão, o prato da dieta das mulheres sertanejas parturientes. Minha mãe teve muitos filhos e se alimentou muito desse prato, que remete diretamente a família e a vida na roça, é muito afetivo.
5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?
Sou nordestina, preta e periférica, não temos a mínima condição de ser autodidata, vivemos em um país que ainda apresenta o racismo e preconceito como barreira. A educação é uma das armas que temos para superar essa situação, empreender com formação nos instrumentaliza para dar passos e realizar sonhos. Precisamos cada vez mais falar sobre comida e lutar contra a fome. Nos últimos anos, nosso país entrou no mapa da fome. Além de falar e estudar, é importante agir e apoiar as ações em favor da segurança alimentar.

6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.
Para ler: Ana Rita Dantas Suassuna - Gastronomia Sertaneja: receitas que contam histórias; Paula Pinto e Silva - Farinha, feijão e carne-seca: um tripé culinário no Brasil colonial; Vilson Caetano - Banquete Sagrado: notas sobre os “de comer” em terreiros de candomblé; Carlos Alberto Dória - Formação da Culinária Brasileira: escritos sobre a cozinha inzoneira.
Para ver: Ilha das flores e Estamira.
Para ouvir: Vai se Food da Ailin Aleixo, Pura Caffeina da Gisele (sobre café), Prato cheio - do O joio e o trigo e Paladar Distinto.
7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?
Sou Ieda de Matos, baiana da Chapada Diamantina; filha de Dona Dalva e Seu Dé, venho de uma família grande de 13 irmãos. Nasci na roça de uma família de agricultores familiares, tenho o maior orgulho. Se eu não tivesse essa história o que eu teria para contar e defender? Sirvo no prato a minha história.
Ieda de Matos foi indicada por Adélia Rodrigues a responder as 7 perguntas.
Perfil da Ieda de Matos
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