Leyla Spada responde 7 perguntas
- Ba
- 1 de ago. de 2022
- 4 min de leitura
Apaixonada por viajar, conhecer e recontar histórias, foi através do turismo (área em que atua desde 2010) que a jornalista Leyla Spada passou a se relacionar profissionalmente com a comida. Em uma viagem com estudantes de Gastronomia para a França, visitando produtores, percebeu que saber a origem dos ingredientes era tão ou mais interessante que visitar restaurantes estrelados.
Através da organização de roteiros gastronômicos pelo Brasil (e fora), focando nos produtores, Leyla desejava transmitir aos participantes aquilo que passou a compreender em suas viagens: cada pessoa e suas decisões são importantes para a “cadeia” do alimento. Da semente e método de agricultura utilizado, condições de vida e de trabalho do produtor, às escolhas de cada cozinheiro, chef e consumidor.

Nestas viagens e roteiros a semente do Comida com História começava a germinar e após se formar em 2019 no mestrado World Food Cultures and Mobility da “Universidade da Slow Food” (UNISG - Universidade de Ciências Gastronômicas), a ideia foi ganhando mais forma. Foi durante o curso que percebeu que, além de poucos conhecerem as histórias por trás da comida, havia uma necessidade urgente dos pequenos produtores se comunicarem bem com os consumidores.
Em 2020 o portal e a revista mensal (gratuita) nasceram, e é deles e do turismo gastronômico que Leyla realiza aquilo que, de certa forma, assumiu como missão: contar as histórias por trás do alimento que consumimos, por trás dos ingredientes usados pelos chefs, mostrando o rosto e ampliando a voz dos produtores, buscando inseri-los e valorizá-los num mercado dominado pelas grandes indústrias.
Conheça um pouquinho mais sobre o caminho da Leyla na alimentação em suas respostas às 7 perguntas.
1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?
Eu acho que a comida me escolheu. Sempre tive uma ligação muito forte com a gastronomia porque tudo na minha família sempre foi ao redor da mesa. E isso acabou influenciando o valor que ao dava a tudo ligado à comida. Em viagens, sempre fui (e sou) curiosa em experimentar coisas novas, saber da cultura gastronômica local.
Sempre fui aberta ao novo e ele me encantava (e ainda encanta). Mas ao mesmo tempo sempre me vi muito presa na cozinha de casa, nas receitas da minha avó materna, da minha mãe. E acredito que isso me faça dar uma importância não tão comum para coisas ligadas à comida que talvez passem despercebidas para outras pessoas, como a origem de um prato, como é feito certo tipo de alimento, quem fez, enfim…
Enquanto a maioria das pessoas senta e come, eu converso com o cozinheiro, busco a origem da bebida, me encanta saber as histórias por trás do que como. Mas o trabalho em si veio com o tempo. Uma coisa foi levando à outra. Sou jornalista formada, mas trabalhava com turismo. Daí entrei para o ramo do turismo gastronômico. Ao fazer as viagens e conhecer os produtores, me apaixonei. E então quis me aprofundar, aprender mais sobre comida. Foi então que fui aceita no Master na UNISG, que é a universidade do Slow Food na Itália. De lá pra cá foi como renascer, foi o antes e o depois, porque eu achei pessoas que tinham o mesmo sentimento que eu tinha em relação ao alimento, vivenciei o amor que os italianos têm pela cultura alimentar deles, e isso me despertou interesse em saber da nossa cultura alimentar aqui no Brasil. E é esse meu interesse e essas descobertas que fizeram nascer o Comida com História, que é o meu trabalho atual.
2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?
Tem uma receita de família de um pão meio adocicado que leva passas e castanhas que me traz muitas lembranças boas da minha infância. Até hoje fazemos essa receita, é super simples, fica uma delícia com manteiga, mel e queijo, ou qualquer tipo de geleia de fruta. Ele era servido nos lanches que a minha avó materna fazia para as amigas dela. Sabe aquelas turmas de lanche de senhoras? Então, a minha avó fazia parte de uma dessas, e lembro que era uma felicidade quando era a vez dela oferecer o lanche. Eu, meus irmãos e primos saíamos da escola direto para a casa dela, e entre pão recheado (torta fria), quibe frito (família de origem libanesa, né?), torta de amendoim, madalenas (especialidade da senhora que trabalhou por anos na casa da minha avó), sonho de goiabada fritinho na hora, tinha esse pão que a minha avó servia em um prato bonito de cristal rodeado de geleias, queijo e presunto. É olhar para esse pão, sentir o perfume dele, que lembro daqueles dias alegres e cheios de comida gostosa!
3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?
Tenho dois: O primeiro é conhecer pessoalmente todos os produtores que já saíram nas edições da revista Comida com História. Mas tem que ser no local onde eles produzem os produtos. Porque a gente só conhece mesmo uma pessoa, conhecendo de onde ela vem, e acredito que a gente só entende um produto, se a gente conhece o local de origem dele. O segundo é ver o brasileiro valorizar o que é nosso como os italianos valorizam o que é deles. E o Comida com História trabalha muito para que isso aconteça.
4 | Qual seu prato preferido hoje?
Difícil dizer, são muitos. Mas nada como um almoço de segunda-feira com arroz, feijão vermelho, vinagrete, farofa, carne moída e banana prata em rodelas.

5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?
Porque comida é tudo: cultura, saúde, economia, política, história. Se a gente estuda sobre o nosso alimento, a gente aprende sobre a história do nosso país, sobre a agricultura familiar, sobre o agronegócio, sobre a fome, sobre a reforma agrária, enfim, a comida te leva a caminhos que podem te ajudar a ser um consumidor mais consciente e a valorizar aspectos dela que antes eram desprezados.
6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.
Para assistir, a série História da Alimentação no Brasil, toda baseada na obra homônima de Câmara Cascudo. Para ouvir, o podcast da Elaine de Azevedo, Panela de Impressão, que traz um olhar diferenciado para a alimentação. E para ler, as revistas Comida com História, claro.
7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?
Uma jornalista gastronômica curiosa e sonhadora, que se encanta a cada trabalho com a riqueza da cultura alimentar brasileira, e luta pra que mais pessoas enxerguem a alimentação como ela.
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