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Luisa Macedo responde 7 perguntas

  • Foto do escritor: Ba
    Ba
  • 5 de jul. de 2022
  • 4 min de leitura

Como ela mesma gosta de dizer, Luisa Macedo é (também) uma “fotógrafa que cozinha e cozinheira que fotografa”. Mulher que se constrói, em parte, dessa mistura indissociável entre arte e comida, criando imagens que dizem mais que muitas palavras — estas que às vezes não dão conta de traduzir muitas coisas que a gente saboreia, escuta, vê e sente.


Luisa Macedo (foto: Rafael Adorján)

As sensíveis fotografias da Luisa têm uma linguagem própria, uma “assinatura” que muitos artistas almejam. Um olhar atento, porém, percebe que há muito movimento em seu trabalho, um espaço que ela deixa ser preenchido com o olhar e as histórias dos outros, do que eles têm para contar e compartilhar. De cada conversa, de cada história, uma imagem nova é gerada com a assinatura, também, daqueles que ela ouviu.


No Comida de quintal, curta metragem que idealizou e dirigiu, compartilhou a história de três mulheres, entre seus quintais e cozinhas. Nas oficinas do Laboratório sem receita, propôs o cozinhar como local de troca e convívio, através da construção de novas receitas a partir de ingredientes carregados das memórias dos participantes. Em um futuro fotolivro e site, divulgará as pesquisas e registros que tem feito de quatro mulheres que cuidam de quintais em territórios de resistência. Não importa para onde olhamos: o trabalho da Luisa é um constante conhecer o outro e se redescobrir. Um prato bem servido de “coisas pequenas” que nascem da escuta, da troca, do olhar atento que ela tem perante a vida e às pessoas.


Que as respostas a seguir nos levem a conhecer um pouco sobre a Luisa para além do que ela nos mostra a cada imagem e projeto que constrói.



1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?


Acho que a comida escolheu trabalhar comigo. Digo isso porque minha formação inicial é em Artes Visuais e por muito tempo não conseguia perceber com clareza como meu fazer artístico estava associado à comida como linguagem, ainda que a cozinha fizesse parte da minha vida desde os 13 anos e tivesse certeza de que eu me expressava de forma muito potente ao criar na cozinha. Então em dado momento simplesmente me vi unindo esses dois universos porque entendi que os processos da cozinha são processos artísticos também, ainda que exista uma visão muito limitada sobre a comida como matéria nas artes.

Quando eu percebi que a linguagem artística (no meu caso a fotografia) e o cozinhar (as pesquisas e o mundo amplo que esse gesto contempla) faziam parte de mim na mesma medida, só me restava aceitar de bom grado que eu deveria bailar entre esses dois campos e, porque não, uni-los.


2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?


Nossa, essa daria muitas páginas de resposta! Acho que todas as minhas memórias de infância têm um caráter gustativo porque passava as férias na roça dos meus avós em Goiás e por lá a rotina era toda pautada pela comida, pelas épocas da colheita, pelos tempos dos preparos de uma ou outra receita. Tenho lembranças muito nítidas do cheiro do chá de canela, por exemplo. Havia um pé de canela no quintal e minha avó colhia as folhas pra fazer a bebida que perfumava a casa toda. Passei muitos anos sem ver um pé de canela, mas quando isso aconteceu parecia que eu estava revendo minha avó, seus cabelos brancos, suas mãos ágeis, o quintal da minha infância.



3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?


Tenho muitos, mas o mais forte hoje é conseguir mapear os quintais urbanos e as cozinheiras que deles cuidam, diante da crescente verticalização das cidades. Registrar as histórias dessas mulheres e o patrimônio que elas carregam consigo, não só no Brasil, mas na América Latina, já que é pra sonhar que seja grande!



4 | Qual seu prato preferido hoje?


O que comerei amanhã! Não sou muito de repetições, apesar de ter alguns preparos favoritos. Prefiro pensar no que ainda não provei e que com certeza irá me surpreender.



5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?


Acredito que a comida é uma linguagem que permite que as pessoas projetem suas vozes, seus desejos, suas individualidades. Acho que pensar e falar sobre comida é trazer para o debate questões sociais, raciais, da memória coletiva, é poder perceber estruturas mais individuais, mas também do entorno e do país em que se vive. Vivemos em uma realidade da escassez, ainda que se produza o suficiente para alimentar a todos. Então, falar sobre a comida de um modo aprofundando e envolvendo o máximo possível de protagonistas nesse diálogo é uma forma de pensar de forma coletiva sobre questões que impactam sobre como organizamos (mal) a vida em sociedade.



Luisa Macedo (foto: Rafael Adorján)

6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.


Para assistir : o filme O sabor da vida, da Naomi Kawase, porque, entre outras coisas, tem muito dessa ideia da comida como linguagem que se compartilha. Para ler : o livro Sob o sol jaguar, do Italo Calvino, que trata do viajante como alguém que saboreia o lugar visitado. Para ouvir: a música Umeboshi, do Gilberto Gil.



7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?


Diria que eu sou uma pessoa que tem muita vontade de capturar as sutilezas do mundo e por isso me aproximo das formas mais dinâmicas e sensoriais em que isso se dá, que pra mim são a cozinha e as artes. Sou uma fotógrafa que cozinha e uma cozinheira que fotografa.


Perfil: @luisa.macedo

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Oi, eu sou a Bá por trás do sobrecomida_lab e sonho um espaço de trocas e conexões, onde comida é meio e/ou mensagem. Um laboratório de ideias que não tem endereço (ainda?), mas tem sotaque.

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