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Patty Durães responde 7 perguntas

  • Foto do escritor: Ba
    Ba
  • 24 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 24 de jun. de 2022

Polinizadora de gentilezas, é assim que a Patty Durães se apresenta. Mas não é fácil encaixá-la em rótulos: pesquisadora, palestrante, produtora, curadora... Conscientemente ela escolhe não se definir, mas estar muitas coisas.

Patty Durães (foto: Filipa Aurélio)

Mulher inspiradora, referência em debater assuntos difíceis com voz generosa, tranquila e acolhedora. Mas não confunda essa gentileza com permissividade: ela sabe muito bem quem ela é e como quer estar nesse mundo.


A Patty foi a primeira pessoa a responder as 7 perguntas, estreando essa “série” do sobrecomida. As respostas foram publicadas no perfil @sobrecomida_lab no dia 2 de maio.




1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?


Porque após muitos anos trabalhando em áreas comerciais bastante diferentes e sendo muito bem sucedida percebi que nada daquilo me brilhava os olhos genuinamente. Lindos escritórios, salário robusto, salto alto e maletas executivas eram o sonho da minha infância. Eu dizia que seria executiva, teria carro, faria reuniões e mais reuniões. Mas a Patrícia adulta percebeu que na verdade ela só precisava encontrar o ambiente do quintal da casa da sua avó e tentar fazer daquilo o seu ganha pão. Aí olhando pro passado eu via a menina feliz e saltitante na cozinha onde tudo acontecia. Muita comida, televisão, máquina de lavar, muita gente em volta da mesa, máquina de costura… tudo dentro da cozinha da minha avó. Era isso o que eu queria: reviver o mundo dentro daquela cozinha. E a busca por esse universo se deu a partir daquele instante.



2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?


Tenho muitas! Eu fui uma criança que comia arroz, feijão, catalônia e ovo frito. Pois era a comida predileta da minha avó. A minha familia fazia muitas festas mas na verdade elas eram pretexto para as paneladas de comida. O objetivo dos encontros era a comida. Todo ano tinha o famoso cozidão da Tia Sandra, todo final de semana algum primo do meu pai aparecia pra abrir a geladeira da minha avó e tirar de lá aquele pirex oval de feijão com linguiças. De vez em quando tinha a baciada de bife a rolê que eu ajudava a rechear e achava a espetada do palito uma coisa divertida. O nhoque da minha mãe e o pudim de leite da Tia Nana também faziam muito sucesso. E a memória que me faz sorrir é a da vizinha, que não tinha filhos mas que toda semana fazia gelatina e me chamava pra ir na casa dela comer. Eu achava aquilo uma grande demonstração de amor e nem sabia explicar. Só sabia que tinha que ir na casa dela e me esbaldar. Até hoje eu amo gelatina.



3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?


Tenho alguns e a maioria deles envolve a casa das pessoas. Sonho em ir para a África e provar aquelas comidas dos tuaregs no deserto, visitar fazendas, sentar debaixo de um Baobá e descascar uma fruta no meio de uma comunidade. Sonho em visitar comunidades quilombolas em todos os biomas do Brasil. Sonho em comer beiju de tapioca fresquinho numa comunidade indígena no meio da Amazônia. Os sonhos mais rebuscados, por ironia do destino, a vida profissional já me deu. Já fui a restaurantes com estrela Michelin em alguns países, já provei menus degustação premiados, já sei o gosto do escargot, do caviar e do foie gras. Agora, diante da minha maturidade, quero mandioca, quiabo, galinha caipira, angu, banana direto do bananal. Essa é a minha busca atual. Tá dando certo.



4 | Qual seu prato preferido hoje?


Eu nunca tive resposta para essa pergunta. E continuo sem ter.

O que eu sei é que eu gosto de comida caseira acima de tudo. A comida da casa dos outros, com aquelas histórias, pratos de família, panela amassada, toalha de mesa manchada. Aquele rolê “se meu fogão falasse…”


5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?


Primeiro porque comer é um ato político. Não tem uma escolha alimentar que façamos que não signifique um posicionamento político e social. E quanto mais falarmos disso por todos os lados mais impactamos a nossa comunidade e sociedade. Isso envolve falar de soberania e segurança alimentar, desperdício, uso consciente dos recursos naturais, alimentos in natura, uso indevido de agrotóxicos, sistemas agroecológicos, a fome, o homem do campo, logística, preço e distribuição. Parece que é só um maço de brócolis mas é um sistema alimentar todo complexo, potente e que depende da nossa vontade política de proteção. Depois disso…. O que vier no papo, é lucro!



6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.


Patty Durães (foto: Filipa Aurélio)

A maior referência é o produtor agrícola. Tenta descobrir onde ele está, aí perto da sua casa. Vai lá…. Conversa com ele. Ouve dele os desafios do trabalho no campo, as horas de trabalho, as técnicas empregadas no plantio e na colheita. Essa é a grande bibliografia de vida. Entender o que vem desses mestres vai te abrir os olhos para a importância do alimento. Feito isso… converse com as cozinheiras da educação infantil … essas mulheres são mestras e fazem mágica com o pouco que têm nas mãos. Fora as riquezas dentro da sua casa ou da sua rua. A tia da casa onde tem a plaquinha de “vende-se salgados”, a boleira do bairro, o feirante e o padeiro. Prepare-se para aprender muito nessas conversas. Feito isso…. Busque mais referências nos livros, nas séries, documentários e redes sociais. O mundo está todo aberto e a distância entre você e qualquer cozinheiro do mundo está a alguns cliques de pesquisa nas plataformas.



7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?


Sou uma abelhinha polinizadora de gentilezas. Acho que para além de produtora de gastronomia, pesquisadora de culturas alimentares, mentora de projetos de empreendedorismo, curadora, educadora, ativista e qualquer outra nomenclatura que eu me dê… a abelhinha é quem mais me define no momento atual.


Perfil da Patty Durães: @patty.duraes

Perfil da Filipa Aurélio: @filipaaurelio


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Oi, eu sou a Bá por trás do sobrecomida_lab e sonho um espaço de trocas e conexões, onde comida é meio e/ou mensagem. Um laboratório de ideias que não tem endereço (ainda?), mas tem sotaque.

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