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Roberto Maxwell responde 7 perguntas

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  • 7 de jul. de 2022
  • 4 min de leitura

Roberto Maxwell tem muitas frentes de trabalho, mas quase todas têm uma coisa em comum: a divulgação da cultura japonesa para os brasileiros. Morando há 17 anos no Japão, compartilha suas experiências e descobertas de “curioso profissional”, comprometido com a informação de qualidade, como bom jornalista que é.


Fugindo dos estereótipos quando se trata de cultura japonesa, Roberto não assume, porém, uma postura gratuitamente combativa. Está sempre aberto ao diálogo, fazendo jus à sua missão de compartilhar e tornar compreensível, aspectos culturais em parte muito distintos dos nossos — mesmo que para isso seja necessário sempre se reinventar.


Roberto Maxwell (foto: Carlos Kato)

Consultor e guia de viagens, professor, produtor, escritor, jornalista... Roberto é um talentoso contador de histórias. Seu newsletter Tokyo Aijo por Roberto Maxwell é para aqueles que ainda gostam de se deixarem transportar, através das palavras, para lugares distantes — muitas vezes inacessíveis se não fossem por pessoas como ele.


No livro Kome descreveu o que viveu no grande terremoto de março de 2011 e seu retorno às áreas atingidas um ano depois. Compartilhou sua experiência com o povo japonês lidando com uma tragédia e de como o alimento pode ser elemento importante de exercício de coletividade e resiliência.


A comida e a bebida transpassam seu trabalho de várias formas, afinal o Roberto é, sobretudo, interessado por culturas — e comida é parte fundamental delas. Seja nas resenhas em seu perfil, seja nos eventos que organiza (como o The Shochu Academy 2022, em São Paulo), nas histórias que divide na Tokyo Aijo ou em tantas outras matérias e eventos em que atua.


Mas independente de tudo o que foi dito, talvez o mais admirável no Roberto seja sua disponibilidade: respondendo as mensagens, participando de projetos que estão começando, conversando e trocando sempre. Não é, nem de longe, alguém a procura de monólogos.


Nas respostas a seguir você pode descobrir mais sobre esse profissional incrível.



1 | Por que você escolheu trabalhar com comida?


É engraçado porque eu não nunca me vi como alguém trabalhando com comida. Não foi uma carreira que procurei. Simplesmente, foi acontecendo, fruto do meu trabalho como jornalista e guia de turismo. Então, eu realmente fui encontrado pela comida e ela me trouxe até o trabalho na área de informação e difusão de conhecimentos gastronômicos.



2 | Tens uma memória gustativa que queiras dividir com a gente?


Meu encontro com a gastronomia japonesa é cheio de pequenas memórias gustativas. Mas acho que a mais marcante delas tem a ver com o Brasil. Fui convidado para falar sobre a cultura brasileira para um grupo de crianças japonesas aqui no Japão. Eu tinha acabado de chegar do Brasil. A senhora que me convidou tem um filho que treinou futebol em um clube brasileiro. No final do evento, ela disse que era muito grata aos brasileiros pelo modo como receberam o filho dela e que, por isso, para agradecer a hospitalidade e a minha presença no evento, ela tinha preparado uma surpresa para mim. E me mostrou um panelaço de feijão. Eu fiquei louco. Adoro feijão e estava doido para comer feijão.

Daí, ela pegou uma daquelas cumbucas japonesas e encheu de feijão para mim. Quando eu botei na boca, o feijão estava doce! Eu não sabia o que fazer com aquele feijão todo, na época eu não comia feijão doce. Aquilo reverbera em mim até hoje porque fala muito sobre questões culturais, sobre diferentes usos de um mesmo ingrediente e sobre coisas que fazem ou não sentido dentro de cada cultura.


3 | Tens um sonho gastronômico que você ainda não realizou?


Sim, mostrar o meu trabalho e as minhas pesquisas e descobertas para um grupo maior de pessoas. Não aceito certos atalhos e procuro não embarcar em certas ondas e a gastronomia tem um pouco isso: é uma cena em que você precisa surfar os hypes e eu não estou muito disposto a isso. Mas estou confiante com os espaços que tenho conquistado e espero que, aos poucos, eu consiga furar a bolha e mostrar mais do Japão e de sua cultura gastronômica.



Roberto Maxwell (foto: Carlos Kato)

4 | Qual seu prato preferido hoje?


Acho que hoje é o tonkatsu, que é um corte de porco empanado e frito por imersão. Acho o tonkatsu um olhar muito interessante dos japoneses para as técnicas de fritura trazidas da Europa. É um empanado bem denso e crocante. Em geral, os cortes são grossos, também. Então, é um tipo de fritura que precisa ser feito com muita técnica, senão você queima o empanado ou entrega o porco cru. Aqui no Japão, também se trabalha com um ponto para o porco — bem rosado — que só é viável quando se conhece bem a origem do animal. Então, fazer um tonkatsu perfeito exige paciência e muito controle dos processos. Uma vez, vi um crítico gringo aqui no Japão dizendo que já comeu excelentes sushis, tempurás, lámens e outros pratos de gastronomia japonesa fora do Japão. Mas nunca conseguiu comer um bom tonkatsu. Infelizmente, tenho que concordar com ele.



5 | Por que você acha que estudar e conversar sobre comida é importante?


Acho que sou da última geração no Brasil que ainda tinha alguma conexão com o campo e aprendeu algo sobre a origem dos ingredientes, sobre a conexão entre a comida e a natureza. A gente viveu um boom do instantâneo, do congelado, do pronto. Isso foi apresentado para a gente como bom e a gente comprou essas ideias. Porém, ainda tenho aquela lembrança da comida da avó, da reunião da família, do abater uma ave para fazer o almoço de domingo. Hoje, a maioria dos jovens não tem ideia disso. Por isso, a gente precisa voltar a estudar a comida, a falar sobre origem dos alimentos, a discutir o uso de ingredientes enlatados etc. Comida é essência da gente como ser biológico e como ser cultural.



6 | Sugere uma referência para assistir, ouvir ou ler sobre comida, por favor.


Gosto muito das séries de comida de rua, como a Street Food da Netflix. Acho que chama a atenção das pessoas não só para a comida em si, mas também para os trabalhadores da área. Como estudo muito sobre gastronomia japonesa, costumo sempre procurar trabalhos na área e, no momento, estou lendo Oishii: The History of Sushi do Eric Rath. Ele é um historiador que desafia a forma como vemos o sushi hoje e acho isso muito bom.



7 | Para encerrar, como você se apresentaria para quem não te conhece?


Roberto Maxwell, um curioso profissional.


Perfil do Roberto Maxwell: @robertomaxwell


Perfil do Carlos Kato: @chkato

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Oi, eu sou a Bá por trás do sobrecomida_lab e sonho um espaço de trocas e conexões, onde comida é meio e/ou mensagem. Um laboratório de ideias que não tem endereço (ainda?), mas tem sotaque.

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